14 de maio de 2020

Os números não são pessoas e as pessoas que nem números são? A desumanização brutal do Brasil de sempre em tempos de pandemia

Autor: Paloma Silveira*


Em sua obra seminal Viva o Povo Brasileiro (1984), João Ubaldo Ribeiro apresenta uma narrativa sobre o Brasil e a constituição de nosso povo. Abarca vários momentos históricos com personagens que se movem entre fatos reais e ficções, lembrando o realismo mágico de Gabriel García Marquez em Cem Anos de Solidão. Dentro desta rica narrativa, com pitadas de ironia, encontramos duas personagens que nos parecem interessantes aos propósitos deste texto: Perilo Ambrósio Góes Farinha e Maria da Fé. Vejamos a primeira.


No contexto da luta pela independência do Brasil travada na Bahia, o autor inicia a história de Perilo. Homem branco, português, de família rica, descrito como um pária e sem muitos escrúpulos, execrado até pelos parentes, decidiu combater ao lado dos/as revoltosos/as. Motivado pela fama e benefícios que poderia obter, Perilo não participou de nenhuma batalha, assistiu tudo à distância com alguns escravos, os “negros imundos”. No entanto, foi alçado a herói da independência. Matou um escravo e com seu sangue sujou suas roupas para parecer que foi ferido em batalha. Cortou a língua de outro, para que este lhe servisse de testemunha viva de seus supostos atos heroicos e muda do fato concreto.


Ao final do processo, o Brasil “independente” e “livre” das garras dos colonizadores portugueses, com o auxílio dos ingleses, Perilo além de herói, se tornou o Barão de Pirapuama. Casa com uma mulher branca, religiosa e rica, a senhorinha da casa. Estupra as escravas negras, açoita e mata os escravos preguiçosos e indolentes, enriquece mais com a escravidão e com um sistema de leis, normas, que não se alteraram com a independência. Afinal, as coisas devem sim mudar, mas para permanecerem as mesmas. Os/as indígenas, “e daí?”. Nem para serem escravos/as lhe serviam.


O que este breve recorte da história de Perilo tem a ver com o Brasil de hoje? Ora, o Brasil da pandemia sob governo de um antipresidente, está conseguindo se tornar ainda mais brutal do que sempre foi. Dados divulgados sobre a pandemia revelam cotidianamente isso, com os números crescentes de pessoas contaminadas e de mortes. Mesmo com a subnotificação, as estimativas divulgadas pelo Ministério da Saúde, em 08/05/2020, apontam números alarmantes: 751 mortes em 24h; 9.897 óbitos registrados e 145.328 casos confirmados (NOGUEIRA, 2020), mas o “Perilo” que ocupa o Palácio do Planalto decide fazer um churrasco com “1,3 mil” convidados, pois “não vive quem fica arrastando cordéis de caixões” complementou sua “noiva”, a namoradinha do BraZil.

 

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

 

*Professora, psicóloga e às vezes artista. Mestra em Psicologia pela UFPE e Doutora em Saúde Coletiva pelo ISC/UFBA. 



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1 Comentário(s)


Que texto potente Paloma. Fala da vulnerabilidade do povo brasileiro, pré e na pandemia, de forma artistica e sensível. Parabéns!

Por: Milena Almeida em 14 de maio de 2020 às 15:02:09

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