01 de junho de 2020

A síndrome da vida anunciada

Autor: Aécio Gomes de Matos*


 

Já tive; agora não tenho mais grandes perspectivas de uma militância política que pudesse ajudar a melhorar o mundo com alguma mudança. O que me sobra agora é a imaginação, para o bem ou para o mal. Penso primeiro no gigante mundo de miseráveis que compõe a maioria de nossa população, gente invisível, excluída da educação, das condições de moradia e saneamento minimamente dignas; mais ainda, dos cuidados fundamentais de saúde e alimentação.

 

De repente, a pandemia começa a deixar às claras a existência deste mundo invisível, justamente para aqueles que têm acesso à renda, à educação, aos planos de saúde, à moradia de qualidade. Uma visibilidade que começa a dar medo das consequências dessas desigualdades. A segunda maior concentração de renda do mundo, do Catar: os 1% mais ricos concentram 28,3% da renda; os 10% respondem por 41,9% da renda. Apenas cinco empresários detêm um patrimônio equivalente ao da metade da população.

 

Com a pandemia, começa um medo desta multidão de miseráveis passando fome e morrendo, diante do eterno olhar negligente dos mais ricos e da classe média que sobrevive com alguma dignidade, mas é passiva diante deste quadro. Medo do crescimento do contágio em ambientes favelados, entre grupos sociais que não têm como se isolar; medo do comportamento de pessoas sem emprego e sem outras rendas, em busca de dinheiro, de comida, de remédios, … tudo que possa implicar em violência.

 

Não é por acaso que começam a surgir iniciativas diversas de injeção de recursos para reduzir essa tensão. Empresas fazem grandes doações para o sistema de saúde, agremiações e associações de voluntários fazem cotas e colheita de comida e material de higiene para os mais pobres. Em nome da solidariedade, que não mobilizava antes, busca-se agora acalmar o leão. Pouco se investe nas mudanças estruturais que poderiam criar uma sociedade mais justa.

 

As questões estruturais da nossa sociedade, que sempre coloquei como foco da militância política, poderiam ser pensadas agora, para além das emergências, voltando-se mais para a vida das pessoas do que para a manutenção dos padrões econômicos do mercado, e da retomada da economia concentradora que nos caracteriza. Em primeiro lugar, há que se definir um modelo econômico diferenciado, mais comprometido com o bem estar social do que com o domínio dos mercados, o que, na prática, termina por controlar o Estado e suas políticas.

 

Leia aqui o texto na íntegra.

 

Publicado originalmente na Revista Será?

*Engenheiro, com doutorado em psicologia e pós-doutorado em sociologia. Professor e pesquisador em psicologia e sociologia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi militante do movimento estudantil e contra a ditadura militar até a redemocratização, e apoia até os dias de hoje organizações da sociedade civil nas suas lutas por moradia, saúde, educação, meio ambiente e reforma agrária. É integrante do Movimento Ética e Democracia. E-mail: aeciomatos@uol.com.br



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