24 de abril de 2020

Entrevista do mês de abril: Ricardo Teixeira

Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição


“Há tantos ou mais perigos em algumas das respostas a esta pandemia, quanto na própria”. O alerta é feito por Ricardo Teixeira, médico e professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e entrevistado do mês de abril do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS). Doutor em Medicina Preventiva (USP) e especialista em Gestão de Processos Comunicacionais (USP), Ricardo aborda a pandemia de Covid-19 sob múltiplos aspectos: as respostas do Estado diante da crise, o distanciamento social, as relações críticas entre a nova “ecologia comunicacional” e as estratégias comunicacionais tradicionais de enfrentamento de epidemias, as disputas pelo mundo pós-viral e, ainda, as medidas de mitigação das consequências socioeconômicas do confinamento - “uma economia cuja proteção se oponha à proteção da vida é uma economia de morte. Não merece ser salva”.

 

O pesquisador faz um panorama das ações adotadas por diversos países para conter o novo coronavírus - a “testagem agressiva e sustentada” e a adoção de diferentes graus de distanciamento social – e mostra preocupação com a situação brasileira: “Relaxar as medidas de distanciamento social, nesse momento, e continuar negligenciando a testagem, certamente acelerará a curva de contágio e a sua velocidade de disseminação entre as comunidades mais pobres, ainda imensamente despreparadas para o impacto. Além do colapso do sistema de saúde, é de se temer muitos outros colapsos no Brasil: dos serviços funerários ao colapso de qualquer coisa que se assemelhe a um 'contrato social'”. Boa leitura!

 

Observatório de Análise Política em Saúde: Um artigo publicado na Folha de S. Pauloescrito por você e pelo também docente da USP, Ivan França Júnior, destaca duas abordagens de enfrentamento da pandemia de Covid-19 que têm obtido resultados positivos, além de afirmar que o Brasil apresenta uma combinação dos dois modelos. Como você avalia as medidas adotadas pelo país até então?

 

Ricardo Teixeira: Identificamos basicamente dois tipos de estratégias preventivas no enfrentamento dessa epidemia: a que chamamos de 'testagem agressiva e sustentada' e aquela baseada na adoção de diferentes graus de 'distanciamento social'. A primeira, uma estratégia focada nos indivíduos de 'alto risco' – aqui entendido como 'alto risco de transmissão', já que o que está em foco é a prevenção da propagação epidêmica. Nessa estratégia, são esses indivíduos que precisam ser detectados, isolados, monitorados, sendo uma estratégia de menor impacto na mobilidade geral da população. A segunda é uma estratégia propriamente populacional, que busca reduzir a mobilidade geral da população, podendo ser aplicada em diferentes intensidades.


A primeira foi implementada em sua versão mais plena na Coreia do Sul, com os resultados que conhecemos. Lembrando que o resultado centralmente esperado dessas estratégias preventivas é o chamado 'achatamento da curva de contágio', a desaceleração da propagação epidêmica, com o intuito de preservar a capacidade de resposta dos sistemas de cuidado, reduzindo a letalidade do agravo e ganhando tempo para o desenvolvimento de vacina ou terapia. A Coreia do Sul é o país mais bem sucedido no uso dessa estratégia até aqui e, talvez, não seja superado. Além de possuir um sistema de saúde público e gratuito, o mais bem avaliado entre os países membros da OCDE, já dispunha de toda a infraestrutura logística necessária para a implementação dessa estratégia quando a epidemia eclodiu. Uma infraestrutura que integra os dispositivos tradicionais da vigilância epidemiológica a dispositivos de vigilância digital capazes de monitorar os movimentos e comportamentos individuais de cada cidadão. Essa infraestrutura representa uma articulação sem precedentes entre biotecnologias (como RT-PCR, sensores de temperatura corporal em pontos de fluxo etc.) e ferramentas de vigilância algorítmica. Possivelmente, a mais acabada infraestrutura de um biopoder jamais construída.

 

A segunda estratégia (distanciamento social) foi fortemente adotada pela China. Importante destacar que, segundo o relatório conjunto OMS-China, a resposta chinesa se deu em 3 etapas: inicialmente, isolando a província de Hubei (onde se encontra Wuhan) para impedir a exportação de casos; numa segunda etapa, promovendo o distanciamento social intensivo para desacelerar a propagação epidêmica; e, por fim, com uma estratégia para reduzir os 'clusters' de casos, em tudo semelhante à estratégia coreana, com ampla utilização de 'big data' e inteligência artificial.


Contudo, ainda que na etapa atual a estratégia principal também seja a testagem agressiva e sustentada com controle cerrado dos positivos e contactantes, a China chegou a zerar os casos novos por alguns dias, com medidas radicais de distanciamento social em níveis de 'supressão', recuperando sua capacidade de controle da epidemia por outros métodos. Um resultado que também parece difícil de ser igualado por outro país. Como no caso da Coreia do Sul, há condições 'facilitadoras' da efetividade da resposta chinesa: um Estado autoritário que encontra poucos limites ao exercício do poder soberano; uma sociedade civil que, do ponto de vista ocidental, inexiste ou é muito fraca e subordinada ao Estado; um povo para quem a disciplina e obediência são um traço cultural milenar, em que impera o coletivismo e não está presente a noção ocidental de vida privada.


No Brasil, como em quase todo mundo, o que temos visto no enfrentamento da epidemia são diferentes combinações dessas duas estratégias, com variações na intensidade de cada uma delas. Mesmo olhando para um único continente, como a Europa, há uma grande variedade de respostas sendo produzidas por cada nação. O que nos leva a fazer uma primeira grande observação sobre a resposta mundial: a despeito de estarmos diante de uma pandemia, de uma ameaça colocada em escala global, assistimos a um recrudescimento das soberanias nacionais, que se fecham dentro de suas fronteiras e passam a produzir respostas exclusivas para suas populações, com baixíssima solidariedade internacional, a ponto de haver uma corrida mundial para aquisição de insumos em relativa escassez no mercado global, como ventiladores, máscaras e testes (valendo atos de pirataria!), num cenário em que, obviamente, as nações mais ricas levarão larga vantagem. Não há um plano global de enfrentamento da pandemia. Desde que a emergência foi decretada, o G7 reuniu-se uma única vez, por videoconferência, e nada deliberou. As desigualdades se acentuam, em todos os níveis, na resposta à pandemia de coronavírus.


Assim, o que percebemos, olhando para o mundo, é um mosaico de respostas, em que sempre se identifica algum grau de distanciamento social (do mais leve ao “lockdown”), combinado às estratégias de testagem (das mais restritas, fazendo apenas algumas confirmações diagnósticas, sem busca ativa e outras medidas de vigilância epidemiológica, às mais agressivas e sustentadas).

 

Leia aqui a entrevista na íntegra.



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2 Comentário(s)


Maravilha de contribuição! Obrigada Ricardo Teixeira

Por: Nara Maria Holanda de Medeiros em 04 de maio de 2020 às 10:11:11

Maravilhosa entrevista de Ricardo Teixeira. Análise densa, fundamentada teórica e filosoficamente, e ademais, com uma análise política clara das alternativas que se colocam para o enfrentamento da pandemia, e seus possíveis desdobramentos . Fiquei absolutamente encantada e parabenizo o OAPS por esta entrevista. Espero que tenha a divulgação necessária e até imagino que poderia ser objeto de uma debate especifico no ISC em casa,

Por: Carmen Teixeira em 29 de abril de 2020 às 08:51:24

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